Antes de Exigir

Existe um momento em que você percebe que tem muito mais deveres antes de exigir os seus direitos.

Durante muito tempo, podemos permanecer em uma posição passiva, esperando que o mundo nos ofereça aquilo que acreditamos merecer. Esperamos reconhecimento, oportunidades, compreensão, melhores relacionamentos, uma vida mais tranquila. E, aos poucos, começamos a acreditar que a vida nos deve alguma coisa.

Até que, em algum momento, a realidade nos confronta.

Você percebe que não funciona exatamente assim.

Na vida pessoal e profissional, as pessoas percebem o seu comportamento. Percebem se você é alguém que entrega, que resolve, que assume responsabilidades, que cumpre aquilo que promete. E talvez seja interessante começar a olhar para a vida por essa perspectiva: antes de perguntar o que estou recebendo, o que estou oferecendo?

Vivemos em um mundo capitalista, em que grande parte das nossas oportunidades está relacionada ao valor que conseguimos gerar. Quando você consegue resolver problemas, facilitar a vida de alguém, criar algo útil, entregar qualidade ou contribuir de alguma maneira, você aumenta as possibilidades de também se beneficiar disso.

Não significa viver para agradar os outros ou aceitar qualquer coisa em troca.

É sobre sair da sensação constante de que você tem direito a receber antes mesmo de construir algo para receber.

É uma mudança de postura: menos sensação de direito e mais disposição para entregar.

E existe outra parte dessa caminhada que talvez seja ainda mais difícil: escolher quem continua ao seu lado.

Aproxime-se de pessoas boas. Pessoas que acrescentam, que respeitam, que possuem valores compatíveis com os seus. E também aprenda a se afastar de pessoas que já não fazem mais sentido na sua vida.

Mesmo quando elas fazem parte da sua rotina.

Porque algumas pessoas não estão apenas na nossa agenda. Elas estão inseridas nos nossos hábitos, nos nossos lugares, nas nossas conversas e no nosso cotidiano. Por isso, quando você se afasta, pode surgir um vazio.

Mas vazio não significa que você tomou a decisão errada.

Às vezes, significa apenas que existe um espaço que ainda não foi preenchido por algo novo.

Relacionamentos de qualidade não são necessariamente aqueles em maior quantidade. Ter bons relacionamentos pode ser muito mais importante do que estar cercado de pessoas o tempo inteiro. Ao longo da vida, a qualidade das nossas relações pode fazer uma diferença enorme na forma como vivemos, enfrentamos dificuldades e percebemos a nós mesmos.

E talvez seja justamente aqui que o estresse também precise ser observado.

Existe uma diferença enorme entre sentir ansiedade antes de uma prova, de uma entrevista de emprego ou de uma situação importante e viver em um estado permanente de tensão.

Aquela ansiedade pontual pode movimentar você. Pode fazer com que você se prepare, desenvolva repertório e encontre maneiras de lidar com uma situação difícil.

O problema é quando o estresse deixa de ser uma resposta a um acontecimento e passa a se tornar o seu estado basal.

Você acorda preocupado.

Passa o dia antecipando problemas.

Sente que alguma coisa ruim está sempre prestes a acontecer.

Respira fundo o tempo inteiro.

Procura comida, celular, compras, distrações ou qualquer outra coisa que consiga aliviar aquela sensação por alguns minutos.

E, mesmo quando nada está acontecendo, você não consegue realmente relaxar.

É aquela ansiedade residual que permanece no fundo, como se o corpo nunca recebesse a mensagem de que está seguro.

O estresse crônico merece atenção justamente porque permanecer durante muito tempo nesse estado de tensão pode prejudicar a saúde física e emocional e aumentar o risco de diversos problemas relacionados à saúde.

E emocionalmente existe algo ainda mais silencioso: você pode começar a perder o prazer pelas coisas.

Aquilo que antes despertava interesse deixa de despertar.

Você não necessariamente olha para si e pensa: “estou com depressão”.

Às vezes, simplesmente percebe que está vivendo no automático.

Nada parece tão bom.

Nada parece suficiente.

Nada traz descanso de verdade.

Por isso, talvez seja importante prestar atenção antes de chegar ao limite.

Se você percebe que não está mais conseguindo controlar esse estado, pare.

Olhe para a sua rotina.

Olhe para os ambientes em que está inserido.

Olhe para os relacionamentos que mantém.

Olhe para aquilo que você está tentando suportar diariamente.

Talvez você não consiga mudar tudo de uma vez. Mas pode começar a construir uma saída.

Fazer uma programação.

Organizar os próximos passos.

Diminuir aquilo que está te fazendo mal.

Procurar pessoas que fazem bem.

E, quando necessário, buscar ajuda profissional.

Porque algumas situações não se resolvem apenas com força de vontade.

Às vezes, a primeira atitude de responsabilidade consigo mesmo não é exigir mais da vida.

É reconhecer que alguma coisa precisa mudar — e começar, mesmo que lentamente, a construir essa mudança.

No fim, talvez maturidade seja justamente isso:

entender que a vida não é apenas sobre aquilo que você acredita merecer, mas também sobre aquilo que você está disposto a construir, entregar, escolher e transformar.

 

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