Existe algo curioso na maneira como enxergamos o mundo

 

Aquilo que pensamos é realmente nosso?

Quase nunca percebemos o quanto daquilo que acreditamos foi construído pelas coisas que ouvimos, pelas pessoas que convivemos e pelas informações que chegaram até nós.

Nós simplesmente olhamos para uma situação e pensamos:

“É evidente.”

Mas será que é tão evidente assim?

Como construímos a nossa maneira de enxergar o mundo

Desde muito cedo, aprendemos a observar quem está ao nosso redor.

O que nossa família pensa.
O que nossos amigos acreditam.
O que as pessoas que admiramos dizem.
O que consideramos certo ou errado.

E, naturalmente, vamos criando referências para interpretar aquilo que acontece à nossa volta.

Quando confundimos familiaridade com verdade

O problema é que, quando encontramos muitas pessoas dizendo as mesmas coisas que nós, começamos a confundir familiaridade com verdade.

Aquilo que ouvimos repetidamente começa a parecer cada vez mais óbvio.

E quando alguma informação confirma aquilo que já acreditávamos, tendemos a recebê-la com muito menos resistência.

Já quando alguém apresenta uma ideia completamente diferente, a reação pode ser outra.

Em vez de curiosidade, sentimos incômodo.

Em vez de tentar entender, queremos encontrar imediatamente o erro.

E talvez você já tenha percebido isso acontecendo em algum lugar da sua própria vida.

O papel das redes sociais naquilo que enxergamos

Nas redes sociais, esse processo pode se tornar ainda mais intenso.

Você demonstra interesse por determinado assunto.

Assiste a um vídeo até o final.

Clica em alguma publicação.

Para alguns segundos a mais em determinado conteúdo.

E, pouco a pouco, começa a receber mais coisas parecidas.

Não é necessário que alguém diga diretamente no que você deve acreditar.

Basta que determinadas ideias apareçam diante de você muitas vezes.

Enquanto outras desaparecem do seu campo de visão.

Duas pessoas podem viver experiências completamente diferentes na mesma rede

E existe uma consequência interessante nisso.

Duas pessoas podem usar a mesma rede social, pesquisar sobre o mesmo assunto e passar horas olhando para uma tela.

Mas podem terminar o dia com impressões completamente diferentes sobre o mundo.

Cada uma terá encontrado argumentos, histórias e informações que parecem confirmar aquilo que já vinha pensando.

E, olhando de dentro da própria experiência, tudo parece fazer sentido.

O que deixamos de ver também importa

É difícil perceber aquilo que não está chegando até nós.

Talvez essa seja uma das partes mais delicadas de tudo isso.

Nós não percebemos apenas o que vemos.

Também somos influenciados pelo que deixamos de ver.

E isso pode acontecer com qualquer pessoa.

Não depende de inteligência.

Não depende necessariamente de caráter.

É uma característica humana.

Quando uma opinião diferente se transforma em ameaça

Gostamos de encontrar coerência.

Gostamos de sentir que compreendemos o que está acontecendo.

Gostamos de estar perto de pessoas que nos entendem.

O problema começa quando essa sensação de segurança se transforma na certeza de que somente a nossa maneira de enxergar faz sentido.

Quando conversar vira uma disputa

É aí que alguém que pensa diferente pode deixar de ser apenas alguém diferente.

Pode se transformar em alguém que precisamos combater.

Uma conversa deixa de ser uma oportunidade de conhecer outra perspectiva e passa a ser uma disputa.

Você fala.

O outro responde.

Você prepara uma resposta enquanto ele ainda está falando.

Ele faz o mesmo.

E, no final, talvez ninguém tenha realmente escutado ninguém.

Isso pode acontecer em qualquer área da vida

Isso pode acontecer em discussões políticas.

Pode acontecer quando falamos sobre religião, educação, comportamento, saúde, relacionamentos ou qualquer outro assunto que desperte convicções profundas.

E pode acontecer dentro da própria família.

Pessoas que passaram anos se amando podem começar a evitar determinados assuntos porque sabem que uma conversa aparentemente simples terminará em conflito.

E se tentássemos entender de onde vem a opinião do outro?

Talvez a pergunta que deveríamos fazer seja menos:

“Como essa pessoa pode pensar assim?”

E mais:

“Que informações fizeram sentido para ela?”

“Que experiências contribuíram para essa visão?”

“Que coisas ela viveu que eu não vivi?”

Isso não significa abandonar aquilo em que acreditamos.

Nem significa tratar todas as opiniões como igualmente corretas.

Significa apenas reconhecer uma coisa:

nós também temos um ponto de vista.

Ter um ponto de vista não significa possuir toda a realidade

E um ponto de vista, por mais sincero que seja, continua sendo uma maneira particular de interpretar a realidade.

Talvez por isso seja tão importante manter algum espaço dentro de nós para a dúvida.

Para o “talvez”.

Para o “eu não sei”.

Para o “posso estar deixando alguma coisa de fora”.

Mudar de opinião também pode ser uma forma de aprendizado

Porque mudar de opinião sobre alguma coisa não deveria ser visto necessariamente como fraqueza.

Às vezes, significa apenas que encontramos uma informação que ainda não conhecíamos.

E ouvir alguém não significa concordar com essa pessoa.

Podemos escutar e continuar discordando.

Podemos compreender sem aceitar.

Podemos respeitar alguém sem compartilhar da sua visão.

O desafio de permanecer inteiro diante da diferença

Talvez o verdadeiro desafio esteja justamente aí.

Conseguir permanecer inteiro diante de uma ideia diferente sem sentir imediatamente que precisamos destruí-la.

Porque talvez o mundo não esteja dividido simplesmente entre pessoas que enxergam a realidade e pessoas que não enxergam.

Talvez existam apenas pessoas olhando para partes diferentes dela.

Nem toda conversa precisa ter um vencedor

E quando duas pessoas conseguem conversar sem transformar a diferença em uma ameaça, alguma coisa interessante pode acontecer.

Uma delas pode descobrir algo que nunca havia considerado.

A outra também.

E ninguém precisa sair daquela conversa como vencedor.

Talvez algumas conversas não existam para decidir quem está certo.

Talvez algumas existam apenas para nos lembrar de que a nossa maneira de enxergar o mundo nunca foi a única possível.

Manter espaço para outras perspectivas

E conservar essa consciência pode ser uma das formas mais simples de não deixar que aquilo que pensamos se transforme na única coisa que conseguimos enxergar.

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