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Quando você desiste no meio do caminho: talvez o problema não seja falta de disciplina
Você começa pensando: “Agora vai”
Quantas vezes você começou alguma coisa pensando:
“Agora vai.”
Um novo projeto.
Correr.
Fazer uma alimentação saudável.
Aprender um novo idioma.
Ler todos os dias.
Nas primeiras semanas, você está empolgada.
Define horário, monta uma estratégia, escolhe os dias da semana, compra roupas de esporte, tênis, acessórios e começa com aquela sensação de que, dessa vez, será diferente.
Porque, no começo, tudo é novidade.
Você consegue imaginar como será quando fizer parte da sua vida.
Na imaginação, já está naquele corpo que deseja, falando outro idioma, acordando cedo, com a casa organizada, a mesa posta, a rotina funcionando perfeitamente.
Quando a novidade acaba, começa a repetição
Só que algumas semanas passam.
E aquilo que parecia tão interessante começa a fazer parte da rotina.
Já não existe a mesma novidade.
Você precisa repetir.
E repetir.
E repetir.
Antes foi uma escolha e agora parece uma obrigação.
Então, você abandona.
E é justamente nesse momento que você começa a pensar:
“Sou indisciplinada.”
“Começo as coisas e nunca termino.”
“Não consigo manter o foco.”
Mas será que é realmente isso?
Você pode ter se apaixonado pela ideia, não pela realidade
Você pode simplesmente ter se apaixonado pela ideia daquela vida antes de descobrir como seria vivê-la de verdade.
Porque existe uma diferença enorme entre imaginar uma realidade e estar dentro dela.
Na nossa cabeça, podemos criar, em uma fração de segundos, uma cena de como será nossa vida depois daquela mudança. E aquela imagem parece tão boa que acreditamos que queremos aquilo.
Mas, quando a realidade bate à porta, ela vem acompanhada de repetição, cansaço, dias ruins, tédio, desconforto e momentos em que você simplesmente não está com vontade.
E ninguém conta que constância também é conviver com o tédio.
A comparação faz você enxergar apenas o que falta
Só que existe outra coisa que precisamos considerar.
Você olha para alguém que admira e pensa:
“Como essa pessoa consegue e eu não?”
Você vê alguém acordando cedo, treinando, lendo, trabalhando, mantendo a casa organizada, cuidando da alimentação e fazendo tudo parecer tão simples.
Enquanto você coloca vários despertadores e, mesmo assim, mal consegue sair da cama.
E começa a acreditar que existe alguma coisa errada com você.
Você está comparando realidades diferentes
Mas você está comparando a sua realidade inteira com um recorte da realidade de outra pessoa.
Você não sabe como é a vida dela quando a câmera está desligada.
Não sabe o que aquela pessoa não consegue fazer, o que considera difícil ou se a rotina que parece perfeita para você seria realmente boa para a sua vida.
Você pode admirar aquela vida sem precisar reproduzi-la.
Retire dela o que faz sentido para você.
Inspiração não precisa virar regra.
Suas pequenas conquistas também contam
Quando observa a vida de alguém e pensa:
“Isso é interessante. Talvez eu possa adaptar alguma coisa para mim.”
E parar por aí.
Sem transformar a vida daquela pessoa em uma régua para medir a sua.
Porque as suas pequenas conquistas continuam sendo conquistas.
Acordar antes do horário.
Tomar banho e conseguir sair de casa.
Chegar ao trabalho sem se atrasar.
Preparar uma refeição.
Arrumar uma parte da casa.
Fazer o necessário que você precisava fazer, mesmo sem estar com vontade.
Quando você coloca tudo na ponta do lápis, percebe que não é verdade que não faz nada.
Você apenas estava olhando para as suas conquistas com uma régua grande demais.
Talvez você ainda não tenha encontrado a sua maneira de fazer
E existe ainda outra possibilidade: ainda não encontrou a sua maneira de fazer.
Eu, por exemplo, não gosto de musculação.
Comecei inúmeras vezes.
Já tentei correr sozinha, participei de grupos de corrida porque existe um lago bonito na minha cidade onde as pessoas caminham e correm.
Eu começava.
E parava.
Começava de novo.
Até que descobri o spinning.
Fui sem grandes expectativas. Pensei: é apenas uma aula.
E gostei.
Hoje faço spinning praticamente todos os dias. Terça e quinta faço pilates e, no final do dia, volto para o spinning.
A diferença não foi eu finalmente ter aprendido a ser disciplinada.
Eu encontrei uma atividade que fazia sentido para mim.
E isso mudou tudo.
Nem tudo que funciona para outra pessoa precisa funcionar para você
Também busquei algumas coisas simplesmente porque via outras pessoas fazendo.
Até banho gelado eu tomei.
Afinal, tanta gente falava dos benefícios.
Eu fui lá e tentei. Peguei um resfriado e ainda descobri que aquilo definitivamente não era para mim. 😂
E pronto.
Não significa que seja ruim.
Significa apenas que não era para mim.
E essa descoberta também faz parte do processo.
Não precisa descobrir o que deveria fazer.
Precisa descobrir o que realmente faria por você.
A promessa de uma fórmula para ter disciplina
Porque pode passar anos tentando acordar às cinco da manhã, tomar banho gelado, fazer exercícios que odeia, seguir uma alimentação que não suporta e criar uma rotina que parece maravilhosa nas redes sociais.
É fácil encontrar vídeos ensinando “10 coisas que vão fazer você ter disciplina”, como se existisse uma fórmula pronta capaz de transformar a sua vida.
Faça isso durante seis meses.
Acorde cedo.
Treine todos os dias.
Leia determinado número de páginas.
Tome banho gelado.
Planeje a sua manhã.
E pronto: você será uma pessoa disciplinada, sua vida vai mudar e tudo finalmente vai entrar nos eixos.
Mas a vida não funciona como uma lista de tarefas.
O problema pode não ser a falta de disciplina
O problema não seja você não conseguir seguir aquelas dez coisas.
E se punir por isso, se chamando de indisciplinada, dizendo para si mesma que você não tem jeito.
Não existe nada mais doloroso do que a autocrítica.
Porque viver já é complexo o suficiente.
E, quando você passa tanto tempo procurando uma solução, isso também pode se tornar um tipo de esgotamento mental.
Quando começa a experimentar tudo o que aparece pela frente: uma nova técnica, um novo hábito, uma nova promessa de que, finalmente, aquilo vai fazer você mudar.
E, se não funciona como esperava, parte para a próxima tentativa.
Sempre com a esperança de que, desta vez, finalmente vai descobrir a fórmula que estava faltando.
O que funciona para alguém pode não funcionar para você
Um exemplo é o livro O Milagre da Manhã.
E não estou fazendo uma crítica ao autor ou dizendo que o método não funciona.
Para algumas pessoas, pode ter funcionado muito bem.
O método propõe seis práticas diárias: silêncio, afirmações, visualização, exercício físico, leitura e escrita.
São práticas que podem fazer sentido e trazer benefícios para muitas pessoas.
Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante:
Isso é possível na sua realidade?
Você consegue acordar todos os dias às cinco da manhã?
Tem uma rotina que permite isso?
Tem filhos pequenos?
Trabalha em horários diferentes?
Dorme bem?
Seu corpo funciona bem nesse horário?
Você realmente gosta de começar o dia dessa maneira?
Porque aquilo pode funcionar muito bem para alguém e, ainda assim, não produzir o mesmo resultado em você.
E, se você tentou, não conseguiu manter e concluiu:
“Sou uma pessoa que não tem objetivo.”
Você pode ter tirado a conclusão errada.
Ou simplesmente ter tentado seguir um caminho que exigia de você mais do que você conseguia sustentar naquele momento.
E isso é muito diferente de ser incompetente.
Você pode adaptar o método à sua vida
Você não precisa fazer todas as seis práticas pela manhã.
Pode fazer uma.
Preferir escrever à noite.
Meditar durante o dia.
Fazer exercício à tarde.
Simplesmente não querer fazer nenhuma delas.
Está tudo bem.
A questão não é encontrar a fórmula mágica.
É descobrir o que, dentro da sua realidade, você consegue sustentar de verdade.
Uma rotina perfeita também pode não ser a sua rotina
Porque, no final, não adianta construir uma rotina perfeita no papel e passar a vida tentando sobreviver a ela.
E, ainda assim, acordar todos os dias pensando:
“Eu não gosto da minha vida.”
Você pode ter lido o livro, treinado, feito sua rotina, se arrumado, passado maquiagem, escovado o cabelo e, ainda assim, olhar para o relógio, perceber que está atrasada, pegar a primeira roupa que encontrar e sair correndo de casa.
Começar o dia cansada, tentando sustentar uma rotina que, na verdade, nunca foi sua.
Constância não é suportar uma rotina que você odeia
Constância não é encontrar força para suportar qualquer rotina.
É encontrar uma rotina que você consiga sustentar porque ela combina com quem você é.
E algumas simplesmente vão ficar pelo caminho.
O importante é perceber a diferença.
Antes de se chamar de indisciplinada, pergunte:
“Eu realmente quero isso ou quero a imagem de quem eu seria se tivesse isso?”
Porque viver na imaginação é muito diferente de viver na prática.
Talvez você não esteja sem foco
Você pode não estar sem foco.
Mas sim tentando chegar a um lugar que, quando imaginou, parecia exatamente o que precisava para começar uma vida nova.
Quando finalmente chegou mais perto, percebeu que não era exatamente o que buscava.
Constância também significa saber o que merece permanecer
E essa é a parte mais importante de tudo:
Você precisa descobrir o que vale a pena continuar.
Porque constância não é nunca parar.
É saber o que merece permanecer, fazer os ajustes necessários e recomeçar sem transformar cada pausa em uma prova de fracasso.
Não precisa ter a vida de alguém.
Mas encontrar a sua.
Talvez seja aí que você pare de desistir no meio do caminho
Seja justamente aí que você pare de desistir no meio do caminho:
quando entender que não tem que ser perfeito.
Ele precisa ser seu.


