O vício em telas

 

O que estamos perdendo quando tudo precisa ser mais rápido?

Talvez, para algumas pessoas, hoje até ler um texto longo tenha se tornado difícil.

Você começa a ler, para no meio do caminho ou simplesmente desiste antes de chegar ao final. Não necessariamente porque o assunto não interessa, mas porque passamos tanto tempo consumindo conteúdos rápidos que fomos nos acostumando a receber uma informação, passar para a próxima e repetir esse processo.

A maioria está tão acostumada à velocidade que coloca os áudios do WhatsApp no 2x, acelera os vídeos no YouTube e, sempre que pode, diminui o tempo necessário para consumir alguma coisa.

Tudo precisa ser mais rápido.

E talvez esse seja um dos sinais mais silenciosos de quanto esse comportamento passou a fazer parte da nossa rotina.

Até mesmo o silêncio parece ter se tornado desconfortável.

Se você está desenvolvendo um raciocínio, as pessoas completam a sua frase. Se surge um momento de silêncio, quase imediatamente alguém pega o telefone para preenchê-lo. Parece que já não conseguimos simplesmente permanecer em silêncio sem sentir a necessidade de escapar dele.

A conversa fica sem conclusão.

Você consegue assistir a um filme inteiro sem interromper para olhar alguma coisa?

Consegue apenas estar presente naquele momento que você mesmo escolheu?

Hoje, muitas coisas parecem precisar ser aceleradas para continuarem interessantes. Se o conteúdo demora, você pula para o próximo.

E talvez seja justamente aí que esteja uma parte do problema.

O que as telas estão fazendo com a nossa atenção?

Quero explicar primeiro que existem pesquisas que discutem o uso problemático das redes sociais a partir de características semelhantes às observadas em comportamentos aditivos, inclusive com algumas semelhanças comportamentais em relação aos transtornos por uso de substâncias.

Mas é importante deixar claro: isso não significa dizer que redes sociais sejam equivalentes ao cigarro ou à bebida.

Quando falo em redes sociais aqui, estou me referindo principalmente às plataformas que fazem parte do nosso cotidiano, como Instagram, TikTok, YouTube e outras que utilizam fluxos contínuos de conteúdo e estímulos rápidos.

Neuroplasticidade e hábitos

Nosso cérebro se adapta às experiências às quais nos submetemos.

A neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de se adaptar às experiências e ao ambiente ao longo da vida.

Se você passa horas todos os dias alternando entre conteúdos, notificações e diferentes estímulos, determinados padrões de atenção e comportamento podem se tornar mais automáticos.

Isso não significa que o cérebro fique “viciado” ou permanentemente alterado. É mais parecido com um caminho que você percorre tantas vezes que fica cada vez mais fácil seguir por ele.

Então, se você passa boa parte do dia recebendo recompensas rápidas, consumindo conteúdos com cores, músicas e cortes acelerados, mas passa pouco tempo pensando profundamente, refletindo ou simplesmente permanecendo em silêncio, esse padrão pode influenciar a forma como você se relaciona com atividades que exigem mais concentração.

Foi por isso que comecei a perceber em mim a dificuldade de ficar alguns minutos sem buscar alguma coisa para fazer, ler um livro ou simplesmente permanecer em silêncio.

Eu havia criado o hábito de procurar constantemente algum estímulo.

Isso também me fez perceber como algumas atividades que exigem mais concentração passaram a exigir de mim um esforço maior.

O ciclo dos gatilhos e dos comportamentos

E esse padrão de busca constante por estímulos não aparece apenas nas redes sociais. Ele pode se manifestar também em outros comportamentos, principalmente quando determinados estímulos passam a funcionar como gatilhos para repetir um comportamento.

Um exemplo disso pode ser o uso compulsivo ou problemático de pornografia.

Um gatilho pode ser uma imagem, uma lembrança, uma situação, uma emoção ou até mesmo o tédio.

Quando determinado comportamento se torna habitual, esses gatilhos podem aumentar a vontade de repeti-lo.

É como se o cérebro tivesse aprendido aquele caminho e, diante de algo associado anteriormente à recompensa, fosse mais fácil voltar para ele.

Por isso, não se trata apenas de força de vontade.

É preciso perceber quais são os gatilhos, entender o que acontece antes do comportamento e criar outras formas de lidar com esse desconforto.

O ciclo de estímulo das redes sociais

Nas redes sociais, o ciclo pode ser simples: você sente tédio, abre um aplicativo; recebe uma notificação, verifica; vê um vídeo, procura outro.

Aos poucos, isso pode deixar de ser uma escolha consciente e se transformar em hábito.

Eu comecei a perceber isso em mim

As redes sociais não provocam ansiedade da mesma maneira em todas as pessoas. Porém, pesquisas encontram associações entre o uso problemático das redes sociais e sintomas de ansiedade, depressão e estresse, especialmente em adolescentes e jovens.

Como já falei em outros conteúdos, eu já trato de ansiedade crônica.

Com isso, aprendi a me conhecer e criei o hábito de monitorar meu humor.

Analiso meus pensamentos e minhas emoções.

Penso se estou mais ansiosa, se estou comendo mais rápido, qual tipo de alimento estou buscando e em que horários do meu dia, se meu sono está desregulado e se quero que as coisas aconteçam mais rápido.

Quando comecei a me afastar das redes, passei a perceber essas mudanças com mais clareza.

Sempre gostei de ler livros de temas mais leves, mas parei. Fiquei muito tempo sem ler.

Até mesmo ouvir as pessoas ficou diferente.

E então comecei a me perguntar:

As pessoas estão ansiosas ou estão tão acostumadas com mídias rápidas que realmente não conseguem mais ouvir?

Não tenho uma resposta simples para isso.

Talvez, em alguns casos, exista ansiedade. Em outros, simplesmente desenvolvemos hábitos de uso que tornam mais difícil permanecer em uma atividade por mais tempo.

E talvez essa seja uma pergunta mais interessante do que tentar encontrar uma única explicação.

O que estamos perdendo?

Nós não temos mais algumas experiências como antes.

Por quê?

Porque o espaço entre duas tarefas, aquele momento em que você saía de uma coisa e ficava consigo mesma antes das redes sociais, praticamente desapareceu.

O celular ocupando os pequenos momentos

Qualquer coisa que você vai fazer, por exemplo, dirigir, o celular está ali. Às vezes, o sinal fica verde e você demora para sair porque estava olhando o telefone.

Se vai pegar um Uber, você não olha mais pela janela porque, durante o trajeto, está conectado.

Se está almoçando, você nem percebe o gosto da comida porque, com a outra mão, está no telefone.

Você consegue conversar com seu namorado ou marido sem cada um estar com o celular na mão?

Antes, não havia essa consciência.

Fazíamos muitas dessas coisas no automático.

E isso também interfere nos momentos de pausa.

Quando até o descanso precisa de estímulo

Você estuda qualquer coisa que seja importante para você naquele momento e, no intervalo, já vai para a rede social.

Parece descanso, mas você continua direcionando sua atividade mental para outra tarefa.

Se eu te perguntar o que você absorveu de importante do Instagram, talvez você nem consiga dizer.

Eu entendo que você está saturado do seu dia e quer ver algo mais leve, sem precisar ser profundo.

Mas tudo depende do tempo que você passa ali.

Muitas vezes, você nem lembra do que viu, porque são tantos conteúdos passando que, no final, pouco permanece.

E essa é uma das coisas que mais me incomodam nessa experiência.

Podemos passar horas dentro de uma rede social e, no final, ter dificuldade para lembrar o que realmente vivemos durante aquele período.

Enquanto isso, deixamos de perceber pequenas experiências que antes faziam parte do nosso dia.

O conteúdo que também pode afetar o bem-estar

Isso sem falar nos conteúdos que podem provocar comparação social, conflito, medo ou indignação.

O uso problemático das redes sociais está associado, em diferentes estudos, a diversos indicadores de pior bem-estar e saúde mental. Mas isso não significa que toda pessoa que utiliza redes sociais desenvolverá ansiedade ou depressão, nem que seja possível explicar esses problemas apenas pelo tempo de tela.

O tipo de uso, o conteúdo consumido, a forma de interação e as características individuais também importam.

E as crianças?

As crianças estão cada vez mais expostas às telas.

Se um adulto, que já possui maior capacidade de autorregulação, pode ter dificuldade para estabelecer limites, imagine uma criança que ainda está desenvolvendo essas habilidades.

A decisão que tomei com minha filha

Hoje, minha filha não vê mais celular.

Percebi que a interação dela com as pessoas estava sendo comprometida, então proibi as pessoas à minha volta de oferecerem o aparelho para ela.

Essa é uma decisão da minha família, baseada naquilo que observei e considero adequado para ela.

Tudo tem idade para acontecer.

O limite que também precisei estabelecer para mim

E comecei a pensar: se para uma criança criamos mecanismos de controle de tempo, por que nós, adultos, permitimos passar do nosso próprio limite?

Meu marido sempre falou sobre isso, mas eu nunca tinha parado para pensar seriamente.

Hoje, trabalho com o celular na mão, então meu contato com ele acaba sendo ainda mais frequente.

Foi aí que precisei começar a reavaliar meu próprio comportamento.

Eu não quero mais ser assim

Não queria simplesmente dizer que precisava usar menos o celular.

Precisava mudar minha rotina.

Pequenas mudanças na rotina

Comecei a fazer pequenas mudanças no meu dia a dia para que isso se tornasse um hábito.

Assim como ir à academia: hoje vou cinco vezes por semana.

Cansei de me submeter àquele mesmo ciclo vicioso de só fazer o que eu quero. Então comecei a aprender a gostar do que me faz bem.

Se eu pudesse escolher, faria balé clássico, porque sempre amei essa prática e dancei por muitos anos. No entanto, os horários não se encaixam na minha rotina.

Então, em vez de continuar usando isso como desculpa, busquei outra alternativa.

Recuperando espaços sem o celular

Depois que comecei a praticar mais atividade física, percebi que passei a depender menos do celular durante esses momentos.

Nem levo o aparelho para a academia.

E hoje escolho ficar sem ele, porque consigo pensar no que vou escrever.

Tenho uma relação do que vou escrever durante a semana.

Como trabalho na Shopee, consigo organizar melhor meu tempo para escrever mais de um conteúdo por dia.

Isso me fez voltar para mim novamente.

Aprendi a escolher o que consumo

Hoje, quase não sigo ninguém.

Gosto de ler artigos para entender os assuntos que quero desenvolver, vejo vídeos no YouTube que me ensinam algo e comecei a usar podcasts há pouco tempo.

Hoje, entro nas redes com uma intenção sobre o que vou consumir.

No Instagram, não vejo mais nada aleatório.

Aprendi a filtrar o que consumo.

E admiro meu marido porque ele já faz isso há muitos anos.

Colocar limites no uso das redes

Quando alguém questiona, talvez pense:

“Eu estou no controle. Não fico tanto tempo assim.”

Mas você pode conferir isso no próprio Instagram e descobrir quanto tempo passou usando o aplicativo.

Quando coloquei um limite no tempo que uso as redes sociais por dia, esse número de horas caiu muito.

Estipulei 45 minutos, divididos em blocos durante o meu dia.

No TikTok, só entro para postar meu conteúdo, porque é uma plataforma muito acelerada e, para mim, acaba sendo mais fácil ficar presa naquele fluxo.

Também estipulei não ficar recorrendo ao aparelho além do que preciso para produzir conteúdo.

Usar redes sociais de forma consciente

Faço um parêntese aqui: você pode usar redes sociais.

O problema começa quando você deixa de perceber que o uso passou de uma escolha para algo que está ocupando tempo demais do seu dia.

O que mudou na minha relação com o conhecimento?

Fiz uma pesquisa mais ampla sobre isso.

Depois de criar o blog, tenho estudado muito mais sobre saúde mental, ansiedade, depressão e temas relacionados.

Tenho buscado compreender melhor os assuntos abordados aqui, com embasamento científico, utilizando fontes como PubMed, BVS, Scopus e Web of Science.

Não sou especialista, mas tenho gastado muito tempo estudando sobre o tema.

Quanto mais estudo, mais me apaixono.

Nunca pensei que poderia desenvolver um interesse tão grande por isso.

Talvez você não esteja sentindo falta do celular

No começo, pode surgir algum desconforto quando você reduz o uso.

Mas talvez o que você esteja sentindo não seja simplesmente falta daquilo.

Talvez seja o desconforto de voltar a estar consigo mesma.

Porque, quando você aprende novamente a ficar em silêncio, conversar, pensar e simplesmente viver o momento, começa a perceber quanto da sua própria experiência estava sendo ocupada por uma tela.

Foi isso que eu comecei a recuperar em mim.

Aprender a gostar da própria companhia

E descobri como gosto da minha companhia, sem precisar de ninguém para sair ou fazer qualquer coisa.

Adoro meus amigos, mas aprendi a gostar ainda mais de estar comigo.

Recuperar a capacidade de viver sem pressa

Talvez o verdadeiro desafio não seja apenas reduzir o tempo nas redes.

Talvez seja recuperar aquilo que fomos deixando pelo caminho: a capacidade de esperar, de ouvir, de pensar sem pressa e de viver experiências que não precisam ser registradas, aceleradas ou imediatamente substituídas por outra coisa.

Porque, no fim, não se trata apenas de quanto tempo passamos diante de uma tela.

Trata-se de quanto da nossa própria vida estamos deixando de experimentar enquanto estamos ali.

Foi isso que eu comecei a perceber.

E foi também isso que comecei a recuperar.

Essa é a minha reflexão.

Fonte científica: SciELO — Revista Paulista de Pediatria, estudo sobre uso excessivo de redes sociais por estudantes do ensino médio no Sul do Brasil.

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